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Nossos presentes de aniversário para Fortaleza

Território do Vazio?

Pensar grande tem sido um discurso em voga. Assim, saio de lugar rasteiro e dou-me
a liberdade de imaginar uma nova lista, desta vez de grandes presentes para Fortaleza,
desses que não haveria tecido suficiente para fazer a fita que os embrulhariam. Fiz
de conta que tinha milhões e milhões de reais no bolso e pus-me a imaginar o que
gostaria que nossa cidade recebesse de grandioso em seu aniversário.

O primeiro presente e mais importante presente: as águas dos mares de Fortaleza
não receberiam mais nenhuma galeria pluvial contaminada com resíduos sanitários.
Depois disso nos dedicaríamos a acabar com o medo sertanejo de se chegar ao
mar criando em Fortaleza a primeira Escola Pública de Esportes Náuticos onde
capacita-se os fortalezenses tanto para o convívio com o mar quanto para atuar como
microempreendedores de negócios esportivos. São dados apoios financeiros para que
organizações e clubes náuticos caiam na água. De leste a oeste da cidade –mediante
apoio público – surgem guarderias que também alugam equipamentos náuticos.
Pessoas da cidade e do mundo fruem das mesmas águas.

E a ponte velha convertida num ponte cultural dos povos do mar, não seria
maravilhoso? Após reforma e reforço da valente estrutura de ferro o Poço da Draga é
reconhecido como reserva cultural onde Fortalezenses e turistas aprendem a conviver
com o mar. É lugar de onde se desce do píer até o mar por escadas ou em saltos, onde
pode-se namorar, encontrar balcão para pescadores, barco de passeio, lugar para o
cafezinho com tapioca e o peixe torrado acompanhado de cerveja. Os mais velhos se
chegam pra contar suas histórias. Um pequeno museu conta a história da ponte e dos
centro e quatro anos de luta da comunidade. Uma fração das elites tem inicialmente
dificuldade em gostar desse lugar com tanto cheiro de povo. Mas gente do mundo
todo acha o lugar esplêndido.

Ah! Outro presente que tornaria qualquer prefeito lembrado para sempre pelos
moradores do bairro partiria da lembrança da velha piscininha formada pelo quebra-
mar em frente ao Estoril. Funcionava como um lugar onde a meninada podia ter o
primeiro contato com o mar com segurança. Aquele universo mágico volta com uma
piscina natural para crianças que se enche a cada maré alta e se escoa na maré seca.
É tida como infinita, pois quando bem cheia se confunde com a superfície do mar
perdendo-se no horizonte. Nada de novo, apenas respeito e escuta dos frequentadores.

Temos em alto mar o patrimônio do Parque da Pedra Riscada onde as águas realmente
são cristalinas e o mundo silencia diante de tanta vida marinha. Que tal torná-lo
acessível de forma não predatória, limitando o numero de visitantes ao ano, regulando
e incentivando atividades? Com as últimas dezenas de nossos milhões de reais
imaginários emergiram plataformas flutuantes, com deck e estrutura de apoio para
mergulhadores e dezenas de mirantes transparentes abaixo do nível do mar. Muito
mais o que ver que num aquário sem prender os animais e sem os elevados custos de
manutenção. De acordo com a alteração da demanda de visitantes, pode crescer ou
diminuir o número de plataformas que ficam nas áreas mais bonitas.

Finalmente, para empregar bem empregado o restante de grana, um presente
renovado: a velha ideia do arvorismo nasceu na Costa Rica nos anos oitenta, já é
praticada em inúmeras cidades brasileiras e nós ficamos para trás. Que tal no lugar
de uma rodovia por dentro de Sabiaguaba, longos caminhos aéreos por um mangue
concebidos sob a coordenação de Ernesto Neto, que já tem trabalho de passeios
nas alturas? Certamente seria a trilha de arvorismo mais incrível do mundo pois ele
saberia juntar nossas redes de pesca e labirintos nessa construção.

Sim, talvez com estes presentes nosso corpo sertanejo pudesse reconhecer as casas,
praças e estradas que existem no mar. E parasse de trata-lo como uma fronteira a ser
superada, um território de vazios a serem aterrados.

por Julio Lira

Originalmente publicado na revista Siara do Diário do Nordeste

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